Pra você que gosta de funk (ou não)

8 out

Recentemente li uma notícia¹ sobre uma estudante que passou em segundo lugar no mestrado da UFF (Universidade Federal Fluminense) com o projeto “My pussy é o poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural”. Genial. Apenas genial.

Cheguei a defender em conversas entre amigos que o funk, nos últimos anos, tem tido um contexto diferente daquela ideia de “mulher como objeto sexual submissa ao homem fazendo uma dança pornográfica”, mas a resposta era quase sempre uma risada ou um delicado pedido para um parar de falar bosta. Para mim, estava e ainda está claro que uma expressão cultural provinda de classes mais baixas não teria a poesia de Chico Buarque, nem a melodia de Tom Jobim. Seria uma melodia simples, com poucos recursos, com letras não elaboradas, com vocabulário coloquial e gírias. Está claro também que essa não é a expressão cultural do meu bairro, da minha cidade, talvez nem do meu estado. Quem nasceu nas favelas do Rio de Janeiro sabe o que o funk representa para sua comunidade. Passível de comparação com a representatividade do rap em São Paulo. Está claro que, em festas de faculdade onde há apresentações de funk, endeusar três ou quatro mulheres que estão dançando no palco – e nem se enquadram no ideal do corpo feminino do público para o qual estavam apresentando – não é sinal de machismo. Está claro que há letras com sinais fortes de feminismo, eu concordando ou não com os valores identificados nas mesmas. Tenho visto as mesmas mulheres que, há alguns anos, rebolavam ao tocar funk, dançando com postura firme e apontando o dedo para o alto ao ouvir Mc Beyonce². Está claro, portanto, que o funk não é machista e não diminui o papel da mulher na sociedade, apenas tem uma abordagem do ponto de vista de um cotidiano diferente do meu. Mas é claro, essa é só a minha opinião.

Fico feliz que alguém tenha levado esse tema para estudo, para enfim desconstruir o preconceito que existe por trás do funk. Ou não.

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¹Para você que não viu a notícia: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/04/aluna-passa-em-1-lugar-em-mestrado-com-projeto-sobre-valesca-popozuda.html

²Para você que senta e chora todos os dias porque não sabe quem é Mc Beyonce (!!!!!!!) http://letras.mus.br/mc-beyonce/fala-mal-de-mim/

Pra você que diz “eu te amo” (ou não)

10 jul

Em CNTP, não sou terrível com palavras. Mas três tipos de discursos me apavoram: declarações, parabenizações e despedidas.

Em primeiro lugar, eu não consigo me declarar. Eu não sei nem falar “eu te amo”. Só sei falar “eu também”, ainda que seja verdadeiro. Nem mesmo com amizades eu sei dizer “eu te amo” antes de ouvir. Nem para os meus pais eu consigo dizer. Às vezes até tenho vontade de tomar a iniciativa e falar, numa boa: “Te amo!”. Mas a vontade passa logo.

Em segundo lugar, vêm as congratulações. O pai fez aniversário, a melhor amiga foi promovida, a prima que tentava ter filhos há 5 anos está grávida, um amigo de longa data escalou o Everest, uma criança de sete anos salvou o mundo, não importa. Infelizmente, tudo o que vai sair da minha boca é um “parabéns”. No máximo acompanhado de “felicidades”, “você merecia”, “que ótimo”, “uau” ou algum palavrão. Todos profundamente verdadeiros. E se eu enfiar um palavrão no meio é porque o que aconteceu foi INCRÍVEL.

Em último lugar, e não menos importantes, as despedidas. Elas acabam comigo. Eu pareço simplesmente não me importar com a ausência da pessoa, independentemente do tempo que ela ficará longe. “Uma semana na praia? Cara, vou ficar com saudades”, “Doze anos na África? Cara, vou ficar com saudades!”

Pra você que torce pro Homem de Ferro (ou não)

11 maio


 

Apesar de ter largado um curso e estar largando o segundo, me considero uma pessoa consciente e decidida. Porém, entre as milhares de dúvidas sobre o mundo que eu poderia ter, só tenho duas.

A primeira consiste num diálogo entre o ter e o ser. É claro que é mais importante ser que ter. Você pode ter tudo o que quiser e jamais vai se sentir completo. Ao mesmo tempo, somente quando você pratica o desapego total é que você passa a ser. Então você passa a ser pleno, sem influências, sem necessidades que você acredita ter, apenas as que realmente tem. Mas para abdicar de tudo na sua vida, você também tem que abdicar dos seus amigos, da sua família, do seu convívio social. Você tem que viver em paralelo, à margem da sociedade. A minha dúvida, a partir dessa reflexão, é: vale a pena viver uma vida plena, uma vez que para isso você tenha que abdicar de tantas coisas?

A segunda dúvida é mais objetiva, porém, não menos complexa: quem ganharia a luta, Batman ou Homem de Ferro?

Enquanto não decido to aê, indo pro shopping assistir Os Vingadores, porque né.

Pra você que tem opinião (ou não)

24 jan

Vi muita gente criticando as pessoas preocupadas com o SOPA (Stop Online Piracy Act)¹ e o PIPA (Protect IP Act)² com o argumento que, enquanto existe a guerra e a fome no mundo, você se preocupa com seus downloads e seus filminhos. A questão não é essa. Esses projetos de lei iriam tirar da internet exatamente o que ela tem de melhor: a livre escolha e a liberdade de expressão. A televisão nos dá a falsa impressão de que podemos escolher o canal que vamos assistir, quando, na verdade, estamos apenas sendo manipulados para ver sempre as coisas que querem que vejamos. Na internet somos livres para escolher e, então, formar nossa opinião. Os downloads que fazemos fazem parte da construção da nossa opinião. E opinião é uma coisa que não formamos na frente da TV, muito menos com internet ‘censurada’.

” O que as guerras e a fome tem a ver com a porra da sua opinião? “

Respondendo com uma pergunta, como posso eu falar sobre fome, guerras e sua óbvia relação com a política e o sistema se não tiver opinião própria? Vou reproduzir o que vejo nas mídias controladas? Vou acabar falando merda besteira sobre um assunto que desconheço.

Agradeçam que o SOPA e o PIPA foram arquivados³ e vocês poderão continuar navegando livremente na internet para continuar tendo opinião (ou começar a ter).

¹Pra você que nunca ouviu falar do SOPA: http://pt.wikipedia.org/wiki/Stop_Online_Piracy_Act

²Pra você que nunca ouviu falar do PIPA: http://pt.wikipedia.org/wiki/PROTECT_IP_Act

³Eu li em algum lugar que tinham sido arquivados. Ao que me parece até então, não foram. Mas foda-se, se eu precisasse dar referências do que eu to falando aqui não tinha colocado dois links pro Wikipedia.

Pra você que entende ironias (ou não)

9 jan

Não que eu odeie gente petulante. Sim, eu odeio gente petulante, mas não é exatamente isso.

A indignação começou quando eu recebi um e-mail¹ criticando a Dilma por falar “presidenta” quando o certo é “presidente”, porque BLA BLA BLA BLA BLA. O nome do e-mail era “A presidenta foi estudanta?” e a primeira frase era “Uma belíssima aula de português”. Ah, uma aula de português! Eles querem uma aula de português! AQUI VAI UMA AULA DE PORTUGUÊS PRA VOCÊS: IRONIA!. Sim, com exclamação e ponto, porque a exclamação demonstra indignação e o ponto diz que não tem mais nada a ser dito. Mas é claro, isso está errado porque BLA BLA BLA BLA BLA. E olha só, que curioso: a estudanta Dilma sabe usar a ironia, vocês não!

“Mas, mas, mas… Não é que eu não entendi a ironia, mas a Dilma é uma pessoa pública e, portanto, não pode dar um mau exemplo porque BLA BLA BLA BLA BLA”

E? Se todo brasileiro soubesse usar ou só entendesse ironias, o Brasil seria um lugar melhor. Obrigada, presidenta, por fazer do Brasil um lugar melhor.

Qualquer argumento que você for usar contra a ironia é inválido. Afinal, eu só vou ouvir BLA BLA BLA BLA BLA, vou sorrir e concordar. Você vai achar que eu dei o braço a torcer, mas na verdade é apenas mais uma ironia. YOU LOSE.

O e-mail ainda terminava com a frase “Por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação..”

Então, por favor, pelo amor à língua portuguesa, repasse essa informação.

E, caso você não tenha reparado, o e-mail termina com dois pontos logo após fazer um ode à língua portuguesa. Vai entender esses professores de português né.

¹Espero que minha tia não leia isso jamais, foi ela quem me enviou o e-mail e ela ia ficar super ofendida…

Pra você que entrega trabalhos (ou não)

26 set

Você tirou 2,5 na prova de sociologia. Sua salvação é um artigo que o professor passou para daqui a duas semanas. Você só se lembra do artigo dois dias antes. Ligou o computador, googlou, leu, interpretou, escreveu. Seu artigo está maravilhoso, você conseguirá recuperar sua nota com facilidade! O mouse está a caminho do botão “salvar” quando – sem motivo aparente – o computador desliga. Dois dias depois do prazo máximo de entrega do artigo, que você não conseguiu entregar, descobre que seu irmão de 13 anos usou seu computador para baixar pornografia e acabou pegando um vírus.

Dessa vez não! Enquanto fazia o projeto final de história da arte, que valia 50% na nota, você salvava de 10 em 10 minutos. Seu irmão não mexe no seu computador há mais de seis meses, desde que você conseguiu arrancar o vírus que ele havia colocado lá. O projeto está pronto e você já mandou imprimir. Esperou alguns segundos e nada. Esperou mais alguns segundos e nada. Mandou imprimir novamente. Nada. Um aviso aparece: a impressora está sem tinta. Tudo bem, você fez o projeto antecipado, é só para amanhã à noite. Amanhã cedo você vai para a faculdade e usa a sua cota de impressão do laboratório de informática. No dia seguinte você chega no laboratório e manda imprimir. Sua cota de impressão acabou. Tudo bem, você grava o projeto no pen drive e leva na gráfica da faculdade para imprimir. Seu pen drive não abre no computador da gráfica. Tudo bem, a gráfica recebe arquivos por e-mail. Você vai até o laboratório de informática e manda no e-mail da gráfica. A gráfica está sem internet. Mais uma vez, você não consegue entregar o projeto.

Eu não chamo isso de displicência. Displicência é pedir pra colocarem seu nome no trabalho ou não fazer porque ficou no bar. O nome disso é Lei de Murphy.

Pra você que consegue usar o computador (ou não)

8 jul

Ah, a máquina! Feita para servir o ser humano; isenta de erros que os homens rotineiramente cometem; livre de quaisquer problemas que possam surgir durante a execução de um trabalho. Sempre pronta para nos ajudar, a qualquer momento. Basta apertarmos um botão e, como num passe de mágica, ela liga e se coloca completamente ao nosso dispor. Ou não.

Aparelhos eletrônicos foram supostamente criados para facilitar as nossas vidas, quando a única coisa que facilitam é uma dor de cabeça ao fim do dia. Celulares não enviam mensagens. Filmadoras portáteis não gravam vídeos. Máquinas digitais cortam as fotos ao meio. Máquinas analógicas queimam as fotos. TekPix então não preciso nem comentar. Pen Drives deletam arquivos sozinhos. Mas o meu favorito, razão pela qual decidi escrever esse texto, é ele: o computador. Pode ser Desktop, Notebook, Netbook ou qualquer outro. Ele não vai te perdoar.

Não importa se o que você está fazendo é um trabalho que vale 30% da nota, o seu TCC, ou apenas tuitando. O cabo dele, que está com mau contato, vai desconectar e o seu computador, que por algum motivo tem uma bateria que dura cinco minutos, vai desligar¹. No meio do que você está fazendo. Antes de você salvar aquela ideia incrível que teve, é claro. E você obviamente vai esquecer a ideia até o computador ligar novamente, porque o tempo médio para ele ligar é maior que o tempo de duração da bateria. Isso se você conseguir fazer o cabo conectar. Ele não vai te perdoar.

Meu ponto é: eu não estou satisfeita com o meu computador. Ninguém que eu conheço está satisfeito com o próprio computador. Você, provavelmente, também não está satisfeito com o computador que tem. E provavelmente não conhece ninguém que esteja. E no natal, quando ganhar um notebook novinho, descobrirá que ele é tão lento quanto o antigo, que seu cabo é curto e não chega da sua cama até a tomada mais próxima, e que o programa que você mais usa trava no novo computador. Ele não vai te perdoar.

Como diria o velho ditado: “Quem não tem HD externo que perca o primeiro trabalho”. Ou algo parecido com isso.

 

¹Isso aconteceu enquanto eu escrevia esse post.